Cuidar do intestino se torna peça importante de um quebra cabeça neuro endócrino imunológico funcional. Existe no intestino cerca de 100 milhões de neurônios, mais  do que a medula espinhal, perdendo apenas para o cérebro em número de neurônios existente. O intestino determina, em grande parte, nossas emoções, estada mental e até preferências alimentares. A saúde do cérebro depende da saúde do intestino.

Doenças como depressão, ansiedade, pânico, autismo, obesidade, insônia, alteração de humor, enxaqueca, doenças imunológicas, intolerâncias alimentares, doenças tireoidianas, sinusites e artrites parecem estar diretamente conectadas a um intestino disfuncional.

A relação do cérebro com o intestino, embora há muito conhecida pelas medicinas milenares, como a Ayurvédica, a Tradicional Chinesa e a Tibetana, vem sendo desvendada somente nas últimas décadas pelos cientistas. O Laboratório de Pesquisas em Neurônios Entéricos da Universidade Estadual de Maringá/PR vem se destacando como centro de pesquisa no assunto, Dr. Marcílio Hubner de Miranda Neto, coordenador da pesquisa, relata que os neurônios, tanto do cérebro como dos intestinos, guardam semelhanças sendo basicamente 3 tipos:
Natureza Associativa – conduzem as informações a serem processadas.

Natureza Motora – respondem aos estímulos.

Natureza Sensorial – captam os estímulos do meio ambiente e os transmitem aos centros nervosos.

Esta autonomia se comprova pela sua habilidade em produzir arcos reflexos – intertransmissão de estímulos entre os neurônios sensitivos, associativos e motores – que tanto lhes permite captar as informações, como processá-las e responder de acordo com a necessidade do momento. O intestino tem a capacidade de pensar, decidir e executar tarefas tal qual o cérebro.

 

Intestino, o “segundo cérebro”

O intestino é um “órgão inteligente” e é o único no corpo humano capaz de executar funções independentemente do sistema nervoso central (SNC) também conhecido como “O segundo cérebro”. Segundo Dr. Hélion Póvoa, um dos maiores especialistas na área de nutrição e bioquímica do país, quem cuida do sistema gastrintestinal melhora sua qualidade de vida. Em seu livro “O Cérebro Desconhecido” (Objetiva), Dr. Póvoa, revela as potencialidades terapêuticas do órgão.

O homem, durante seu processo de evolução, desenvolveu dois cérebros: um na cabeça (que lhe permitia encontrar meios de sobrevivência e garantir a reprodução da espécie) e o intestino, que ficaria responsável pelos processos vitais de digerir e absorver alimentos, dizem as teorias científicas.

Desde o século 19, o intestino é reconhecido como órgão autônomo, capaz de executar funções independentemente de estar conectado ao sistema nervoso central. É o intestino que seleciona entre o que comemos o que é ou não útil.

O intestino fabrica e utiliza mais de 30 neurotransmissores – substâncias envolvidas na transmissão e processamento das informações pelos neurônios, tanto do intestino quanto do cérebro. Todos esses neurônios e neurotransmissores são necessários para a complexa função que é a passagem dos alimentos pelo intestino, a chamada digestão.

Ao mesmo tempo, esses mesmos neurônios e neurotransmissores, em conjunto com os do cérebro, fazem parte da rede neural responsável pela conexão entre o bem-estar emocional e o bem-estar físico.

O órgão concentra, também, 80% do potencial de imunidade do corpo humano, além de ser grande produtor de hormônio de crescimento, um verdadeiro coringa no combate aos sintomas do envelhecimento.

 

A íntima relação entre intestino, comportamento, mente e cérebro

Em grande parte, nossas emoções, estado mental e até preferências alimentares estão intimamente relacionados com o intestino. Da saúde do intestino depende a saúde do cérebro e também o mal-estar. Neurotransmissores como a serotonina, substância química fabricada pelos neurônios e que possui papel vital na transmissão e processamento das informações e estímulos sensoriais através dos neurônios, conectam o que acontece no cérebro com o que acontece no intestino e vice-versa. O intestino fabrica muito mais serotonina que o cérebro. Cerca de 90% da serotonina é fabricada e armazenada no intestino.

 

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O equilíbrio da serotonina determina, em última análise, o “fundo musical” dos nossos pensamentos. Dependendo do fundo musical, uma mesma cena (pensamento) pode ser interpretada como alegre, triste, pavorosa, engraçada, neutra, relaxante ou aterrorizante.

A alegria de viver e bem estar estão diretamente relacionados com a produção da serotonina. Tanto é assim, que nos tratamentos clássicos da depressão envolvem esse neurotransmissor, interferindo no seu ciclo natural dentro do cérebro, conhecidos como inibidores da receptação da serotonina. A grande questão é que esses medicamentos não atuam no cerne do problema, que é a falta de produção da serotonina. Por isso, é comum os pacientes portadores de depressão necessitarem constantemente de ajuste de doses e trocas de medicamentos e muitos não se sentirem melhor ou curados longo prazo. E mais, a serotonina é a precursora da melatonina, hormônio produzido pela glândula pineal, o centro superior de processamento de informação eletromagnética, bastante conhecido como auxiliar do bom sono. A melatonina é também o antioxidante mais poderoso produzido pelo organismo.

A serotonina e a melatonina têm uma relação de alternância. A primeira predomina quando o cérebro se encontra em estado de alerta e a segunda nos períodos de sono. O que não se sabia até recentemente é que ambas são secretadas pelas glândulas do intestino, e não apenas pela pineal. Esta dupla dinâmica aumenta a qualidade do sono, a sensação de bem-estar, o otimismo, o bom humor, a capacidade de atenção e de raciocínio. Os pensamentos ficam mais leves e a vida mais prazerosa. Quando analisamos o fato de que o intestino é fundamental na produção da serotonina, nada mais é preciso acrescentar.

 

“A alegria e a inteligência emocional que tanto precisamos para viver bem, começam a partir de um intestino saudável. Por isso, só nos resta garantir a esse órgão matérias-primas de primeira qualidade. E o intestino, inteligentemente, se encarregará de garantir nossa saúde e nossa felicidade”. (Dr. Hélio Póvoa)

 

Diarreia e prisão de ventre podem ser sinais de intestino doente

 

Os alimentos devem percorrer o sistema digestivo a uma velocidade metabólica ideal, para que a massa alimentar e o bolo fecal não fiquem retidos (em qualquer parte do seu trajeto) mais do que o tempo necessário, este deslocamento é comandado pelos neurônios entéricos. Qualquer alteração física ou mental se reflete na aceleração ou desaceleração dos movimentos peristálticos, conhecido como diarreia ou prisão de ventre, esse desequilíbrio a longo prazo, geram consequências desastrosas.

Diarreia

– Desidratação e perda de sais minerais, cuja consequência mais imediata é o desequilíbrio ácido-alcalino.

– Perda da fluidez dos humores, dificultando a desintoxicação, nutrição, oxigenação das células e dos humores e controle sobre metabolismo celular.

– Deficiência dos sucos digestivos, promovendo a má digestão, as inflamações intestinais, a permeabilidade da mucosa intestinal, exaustão do sistema imunitário, subnutrição celular, problemas emocionais e mentais etc.

 

Prisão de ventre

– Fermentação, putrefação e oxidação do bolo alimentar (gases e flatulência).

– Intoxicação do organismo e congestão hepática.

– Disbiose da flora intestinal (desequilíbrio com dominância das bactérias patogênicas).

– Humor descontrolado.

– Ressecamento e acúmulo de fezes nas paredes intestinal, impedindo a absorção dos nutrientes devido ao sufocamento da mucosa, promovendo um ambiente propício à flora disbiótica e aos processos infecciosos e inflamatórios.

 

Portanto, torna-se estreita a relação entre um sistema digestivo saudável e a sensação de bem estar físico, emocional e psíquico. Podem parecer irreais essas afirmações, mas considere os seguintes fatos:

O processo de digestão é complexo e independente do cérebro. Nele está envolvido, o monitoramento da pressão exercida pelo alimento na parede do intestino; o movimento coordenado desse alimento ao longo do intestino; o progresso do processo digestivo; a concentração de sal, nutrientes, acidez, alcalinidade, tudo isso sem ajuda do cérebro.

A quase totalidade de quem sofre de doenças crônicas envolvendo o cérebro, como por exemplo, depressão, pânico, ansiedade, enxaqueca, autismo, esquizofrenia etc., sofre também de problemas no sistema digestivo em maior ou menor grau, como constipação intestinal (intestino preso), síndrome do intestino irritável (alternância entre períodos com intestino muito solto e períodos com intestino preso), cinetose (enjoo fácil quando em movimento, por exemplo, numa simples viagem de carro ou ônibus), colite, doença de Crohn (tipo especial e potencialmente grave de inflamação no intestino) e todo tipo de má digestão e intolerâncias alimentares.

Emoções extremamente fortes podem causar desde “frio no estômago” até diarreia e/ou vômitos. Quantos de nós não lembramos de pelo menos um dia muito importante, na infância ou adolescência, pode ter sido uma viagem muito esperada, um prêmio muito antecipado, um final decisivo de torneio ou competição, ou até uma prova escolar, onde, justamente naquele dia, aconteceu uma diarreia e/ou vômito “inexplicável”?

Situações de stress podem também provocar um aumento da permeabilidade do intestino, resultando na absorção de “pedaços” maiores, incompletamente digeridos, de material digestivo, os quais, uma vez na circulação sanguínea, não são reconhecidos pelo organismo como nutrientes a serem aproveitados, mas sim como corpos estranhos a serem atacados pelo sistema imunológico, provocando reação com produção de anticorpos, uma reação inútil que apenas serve para criar todo um estado inflamatório no nosso corpo e cérebro, o que predispõe a uma série de doenças. Isso além de diminuir o “gás” de nosso sistema imunológico para combater os vírus e bactérias causadores de doenças que realmente importam, e predispondo, em consequência, a toda sorte de infecções e a quadros crônicos a exemplo sinusites, desânimo ou fadiga, tireoideopatias, intolerâncias alimentares, artrites, depressão, obesidade entre outras. Saiba mais sobre intestino e sistema imunológico na matéria sobre disbiose intestinal.

 

A importância da alimentação na saúde cerebral.

 

A higiene alimentar e a higienização do intestino também são essenciais à prevenção e à reversão dos quadros de distúrbios intestinais, sejam imunológicos, emocionais e problemas mentais, que cada dia aumenta percentualmente o número de casos em todo o mundo. A alimentação moderna, com tanto refinados, aditivados e agrotóxicos, pode estar fazendo com que o intestino padeça, dificultando todas as nossas inteligências, saúde e qualidade de vida. As primeiras evidências desse fato vieram das pesquisas do Dr. Michael D. Gershon, autor do livro O Segundo Cérebro (editora Campus) que revelaram dois fenômenos importantíssimos:

  • As paredes do intestino, estimuladas pela fricção das fibras alimentares, secretam a serotonina, substância controladora do peristaltismo, movimentando o bolo alimentar e as fezes ao longo do trato gastrintestinal.
  • As paredes do trato gastrintestinal são recobertas por uma rede de neurônios diretamente responsáveis pela coordenação de todas as funções digestivas que, embora estejam conectados ao sistema nervoso central, têm total autonomia sobre todas as etapas do processo digestivo.

 

Saiba quais são os alimentos mais importantes para a saúde intestinal

Como restaurar um equilíbrio funcional intestinal?

 

Para uma boa função intestinal 3 fatores são importantes:

1- Água:

Uma ingestão de pelo menos 2,0 litro de água por dia tem sido uma média estipulada para uma boa hidratação do intestino. A quantidade de alimentos sólidos ingeridos, assim como perdas metabólicas acarretará num ajusto hídrico diário.

2 – Prebióticos

As fibras são fundamentais para o bom funcionamento do intestino. O importante ao escolher os alimentos da sua dieta é dar preferência aos integrais, como farinha, arroz, aveia e outros. Recomenda-se ingerir cerca de cinco porções de frutas e hortaliças (legumes e verduras) por dia.

 

3- Probióticos

A reposição dos lactobacilos intestinais auxiliam na preservação do equilíbrio funcional e permeabilidade das membranas. Para mais informações leia sobre disbiose intestinal e probióticos.

O tratamento intestinal é parte fundamental para todas as doenças relatadas neste contexto, para isso a instituição de um projeto alimentar terapêutico visa promover um melhor funcionamento do intestino equilibrando todos os fatores diretamente envolvidos neste processo. A utilização de medicamentos para prisão de ventre que promovem uma irritação na mucosa intestinal, só levam a piora do problema. A instituição de uma terapêutica eficiente dependerá em alguns casos mais do que uma dieta ou orientação nutricional. O tratamento e a suplementação com nutrientes tratarão a causa da doença eficientemente.

Um médico especializado em práticas da boa saúde intestinal saberá instituir e conduzir uma terapêutica adequada.

 

Fontes:

– Wikipedia

– Doutor Michael D. Gershon – O Segundo Cérebro – Ed. Campus.

– Doutor Helion Póvoa – O cérebro desconhecido – Ed.Objetiva

– Doutor Juarez Calegaro. “Mentes Criativas uma aventura num cérebro bem nutrido”.

 

Referências:

Shifts in microbiota species and fermentation products in a dietary model enriched in fat and sucrose.

Nutritional iron turned inside out: intestinal stress from a gut microbial perspective.

Environmental Risk Factors for Inflammatory Bowel Diseases: A Review.

Disbiose intestinal.

Uso de probióticos na recuperação da flora intestinal.

Benefícios dos probióticos à saúde humana.

Probiotics normalize the gut-brain-microbiota axis in immunodeficient mice.

High-fat-diet-mediated dysbiosis promotes intestinal carcinogenesis independently of obesity.

Effect of commensals and probiotics on visceral sensitivity and pain in irritable bowel syndrome.

The Microbiota, the Immune System and the Allograft

Diet, microbiota, and inflammatory bowel disease: lessons from Japanese foods.

The gastrointestinal tract microbiome, probiotics, and mood.